Março 29, 2004
Segunda-feira cinzenta... A primavera tarda a chegar.
Sábado, recebi carta do SEF enquanto não sei o que os "gajos" da PIDE querem comigo, deixo um texto já publicado anteriormente no Me, Myself & I. Um texto atemporal neste Portugal que tão bem sabe acolher os imigrantes.
[23.1.04 8:42 PM | RENATA SILVEIRA]
Pois tu foste estrangeiro
por Francisco José Viegas
Em 1975, a xenofobia nacional, herdada do salazarismo e do que o antecedeu (o provincianismo pacóvio e a Inquisição), foi mais uma vez posta à prova diante da chegada de meio milhão de portugueses vindos das antigas colónias. Deserdados e hostilizados pelo poder político-militar da época, que lhes desaprovava a biografia e as ideias, os retornados mudaram Portugal em poucos anos: evitaram que a província desaparecesse de forma abrupta, transportando consigo criatividade, energia e vontade de vencer; contribuíram para mudar os hábitos e os costumes de um país medíocre cheio de moralistas pálidos e machistas. Fizeram-no contando também com a hostilidade do cidadão comum, que os considerava portugueses de segunda. Eles, sim, os herdeiros legítimos de Afonso Henriques, eram os "portugueses".
Desaprovando largamente a vinda de pretos e de imigrantes de Leste, sem falar dos brasileiros, os "portugueses" viveram os anos 80 e 90 à sombra de muito do que os estrangeiros fizeram por eles - das auto-estradas à Expo 98. Os "portugueses" não se incomodaram com o facto de milhares de trabalhadores africanos viverem em condições degradantes nos estaleiros do Alqueva, no lamaçal da Expo e nas encostas da Venda Nova. Apreciavam, até, o ponto de vista "étnico", com os bares cabo-verdianos e as discotecas angolanas, ou o serviço doméstico barato - mas nunca prestaram atenção (salvo quando eram atingidos) à espiral de violência que tomava conta dos subúrbios e lhes destruía os comboios de Sintra. Daí, passaram a olhar de viés os brasileiros: entre eles, os dentistas (que vieram tornar mais acessível o mercado) e os empregados de lojas e restaurantes (que atendiam melhor). Depois, vieram os imigrantes de Leste, que - mesmo sujeitos às mafias criminosas que andavam à solta pelo país -, pela sua competência, conquistaram lugares na construção civil, no serviço doméstico e na pequena indústria (muitos deles com qualificação superior). Isso está tudo muito bem, mas os"portugueses" também acham que eles lhes tiram o lugar (até há enfermeiros espanhóis, imagine-se), que eles acabam por subir na vida, por comprar casa e assentar família. Que eles, um dia, podem votar. Que os filhos deles, um dia, podem ir parar à Administração Pública, às universidades. Que um dia, eles - que "vieram com uma mão à frente, outra atrás", como manda dizer a tradição - vão criar empresas e enriquecer.
Esse cenário é inaceitável para os "portugueses". Que os estrangeiros e imigrantes estejam entre nós é uma coisa (podem viver nos estaleiros, apanhar o autocarro das cinco da manhã, os seus filhos tratados pelas misericórdias e organismos de "inserção social", podem as mulheres viver aprisionadas em bordéis de "empresários da noite", pela província fora, podem correr para as filas de legalização durante a madrugada). Inteiramente diferente é que façam disto a sua terra; "eles" não passam de brasileiros, cabo-verdianos, russos, ucranianos, moldavos ou marroquinos e paquistaneses. Este ano, podem entrar 6500. Os cavalheiros da indústria já vieram dizer que é pouco. O Governo mantém que basta. Se forem precisos mais (a expressão é chocante, não é?), já se sabe: entram ilegalmente. Sempre podem viver nos estaleiros, embebedar-se com vodca de Sacavém e com o tempo há-de ver-se. Não pensem é que podem ser "portugueses".
Copyright © 2003 JN
* Francisco José Viegas é escritor e editor da Grande Reportagem, revista da qual dou leitora há anos, que dá a conhecer a realidade portuguesa de maneira contundente. Mesmo antes de estar em Portugal, já fazia idéia do que era este país, através das linhas escritas pelo Viegas e sua equipe. Esperava ansiosamente a chegada da revista à tabacaria do Natal Shopping, geralmente com 4 ou 6 meses de atraso. Recentemente a Grande Reportagem passou a ser editada semanalmente através do Jornal de Notícias. Pensei que seria um fato negativo para a revista. Hoje, algum tempo depois, agradeço a oportunidade de ter, não apenas uma, mas quatro Grandes Reportagens por mês.
NOTAS:
O Brasil tem 180 milhões de habitantes, dois milhões dos quais vivendo fora do território nacional. Portugal tem 10 milhões de habitantes em Portugal, sendo que há mais cinco milhões e meio vivendo por todo o mundo. Destes, são quase 800 mil apenas no Brasil.
Somos cerca de 40 mil brasileiros em Portugal.
Saudades da minha terra...
COMENTÁRIOS?
Sábado, recebi carta do SEF enquanto não sei o que os "gajos" da PIDE querem comigo, deixo um texto já publicado anteriormente no Me, Myself & I. Um texto atemporal neste Portugal que tão bem sabe acolher os imigrantes.
[23.1.04 8:42 PM | RENATA SILVEIRA]
Pois tu foste estrangeiro
por Francisco José Viegas
Em 1975, a xenofobia nacional, herdada do salazarismo e do que o antecedeu (o provincianismo pacóvio e a Inquisição), foi mais uma vez posta à prova diante da chegada de meio milhão de portugueses vindos das antigas colónias. Deserdados e hostilizados pelo poder político-militar da época, que lhes desaprovava a biografia e as ideias, os retornados mudaram Portugal em poucos anos: evitaram que a província desaparecesse de forma abrupta, transportando consigo criatividade, energia e vontade de vencer; contribuíram para mudar os hábitos e os costumes de um país medíocre cheio de moralistas pálidos e machistas. Fizeram-no contando também com a hostilidade do cidadão comum, que os considerava portugueses de segunda. Eles, sim, os herdeiros legítimos de Afonso Henriques, eram os "portugueses".
Desaprovando largamente a vinda de pretos e de imigrantes de Leste, sem falar dos brasileiros, os "portugueses" viveram os anos 80 e 90 à sombra de muito do que os estrangeiros fizeram por eles - das auto-estradas à Expo 98. Os "portugueses" não se incomodaram com o facto de milhares de trabalhadores africanos viverem em condições degradantes nos estaleiros do Alqueva, no lamaçal da Expo e nas encostas da Venda Nova. Apreciavam, até, o ponto de vista "étnico", com os bares cabo-verdianos e as discotecas angolanas, ou o serviço doméstico barato - mas nunca prestaram atenção (salvo quando eram atingidos) à espiral de violência que tomava conta dos subúrbios e lhes destruía os comboios de Sintra. Daí, passaram a olhar de viés os brasileiros: entre eles, os dentistas (que vieram tornar mais acessível o mercado) e os empregados de lojas e restaurantes (que atendiam melhor). Depois, vieram os imigrantes de Leste, que - mesmo sujeitos às mafias criminosas que andavam à solta pelo país -, pela sua competência, conquistaram lugares na construção civil, no serviço doméstico e na pequena indústria (muitos deles com qualificação superior). Isso está tudo muito bem, mas os"portugueses" também acham que eles lhes tiram o lugar (até há enfermeiros espanhóis, imagine-se), que eles acabam por subir na vida, por comprar casa e assentar família. Que eles, um dia, podem votar. Que os filhos deles, um dia, podem ir parar à Administração Pública, às universidades. Que um dia, eles - que "vieram com uma mão à frente, outra atrás", como manda dizer a tradição - vão criar empresas e enriquecer.
Esse cenário é inaceitável para os "portugueses". Que os estrangeiros e imigrantes estejam entre nós é uma coisa (podem viver nos estaleiros, apanhar o autocarro das cinco da manhã, os seus filhos tratados pelas misericórdias e organismos de "inserção social", podem as mulheres viver aprisionadas em bordéis de "empresários da noite", pela província fora, podem correr para as filas de legalização durante a madrugada). Inteiramente diferente é que façam disto a sua terra; "eles" não passam de brasileiros, cabo-verdianos, russos, ucranianos, moldavos ou marroquinos e paquistaneses. Este ano, podem entrar 6500. Os cavalheiros da indústria já vieram dizer que é pouco. O Governo mantém que basta. Se forem precisos mais (a expressão é chocante, não é?), já se sabe: entram ilegalmente. Sempre podem viver nos estaleiros, embebedar-se com vodca de Sacavém e com o tempo há-de ver-se. Não pensem é que podem ser "portugueses".
Copyright © 2003 JN
* Francisco José Viegas é escritor e editor da Grande Reportagem, revista da qual dou leitora há anos, que dá a conhecer a realidade portuguesa de maneira contundente. Mesmo antes de estar em Portugal, já fazia idéia do que era este país, através das linhas escritas pelo Viegas e sua equipe. Esperava ansiosamente a chegada da revista à tabacaria do Natal Shopping, geralmente com 4 ou 6 meses de atraso. Recentemente a Grande Reportagem passou a ser editada semanalmente através do Jornal de Notícias. Pensei que seria um fato negativo para a revista. Hoje, algum tempo depois, agradeço a oportunidade de ter, não apenas uma, mas quatro Grandes Reportagens por mês.
NOTAS:
O Brasil tem 180 milhões de habitantes, dois milhões dos quais vivendo fora do território nacional. Portugal tem 10 milhões de habitantes em Portugal, sendo que há mais cinco milhões e meio vivendo por todo o mundo. Destes, são quase 800 mil apenas no Brasil.
Somos cerca de 40 mil brasileiros em Portugal.
Saudades da minha terra...
[12.2.04 1:07 PM | RENATA SILVEIRA]
aNDO MEIO DESLIGADA...
... Mas com os pés no chão, apesar de estar num aperreio só, correndo doidinha de um lado para o outro!
Ontem encontrei um casal de pernambucano arretados, numa parada de ônibus em Gaia. Quando ouvi a doidinha dizer pro cabra que "a passarela era até bonitTInha, mas não funcionava pois as pessoas tinham que ARRUDIAR TUDINHO", não me contive e puxei uns bons quartos de hora de conversa. Eram estudantes de Arquitetura da Universidade do Porto. Sinto uma enorme saudade do sotaque e das expressões da minha terra.
Quase já "estou a falar português, fuôôôôgo!!!"
Aliás, há uma Associação de Estudantes Brasileiros da Universidade do Porto. É mole?!
Dica para conhecer o espírito portuense:
Fuôôôgo! Fuôôôgo! Fuôôôgo!
Para os que estão constantemente irritados com a vida, sugiro um pulinho no
VIDA IRRITANTE, um blog p'ra quem tá co'a bexiga!
COMENTÁRIOS?
aNDO MEIO DESLIGADA...
... Mas com os pés no chão, apesar de estar num aperreio só, correndo doidinha de um lado para o outro!
Ontem encontrei um casal de pernambucano arretados, numa parada de ônibus em Gaia. Quando ouvi a doidinha dizer pro cabra que "a passarela era até bonitTInha, mas não funcionava pois as pessoas tinham que ARRUDIAR TUDINHO", não me contive e puxei uns bons quartos de hora de conversa. Eram estudantes de Arquitetura da Universidade do Porto. Sinto uma enorme saudade do sotaque e das expressões da minha terra.
Quase já "estou a falar português, fuôôôôgo!!!"
Aliás, há uma Associação de Estudantes Brasileiros da Universidade do Porto. É mole?!
Dica para conhecer o espírito portuense:
Fuôôôgo! Fuôôôgo! Fuôôôgo!
Para os que estão constantemente irritados com a vida, sugiro um pulinho no
VIDA IRRITANTE, um blog p'ra quem tá co'a bexiga!
Março 27, 2004
BALZAQUIANA!
Terça-feirazinha ingrata. Cheguei de Caminha pelas nove horas da noite. Tudo o que me restava, após receber um telefonema da redação dando conta de que eu viajaria no dia seguinte e passaria os próximos dois dias em Sernancelhe, era ver o segundo tempo do Porto-Lyon. Passei um dia de cão! Viagem à trabalho, sequer vi o Marcelo antes de sair e após voltar e para piorar a situação nem pude me dar ao luxo de bebemorar os meus trintinha com alguns shots... Teria de levantar muito, mais muito cedo para pegar a estrada.
Definitivamente, este ano o meu inferno astral foi além dos limites... No entanto, cá estou eu na casa dos trinta! Ganhei de presente uma belíssima vitória do Fê Cê Pê sobre o Lyonzinho do ex-vascaíno Juninho Pernambucano... Gol de Deco, Gol de Ricardo Carvalho e as semi-finais da liga dos sonhos está mais próxima.
Provavelmente um crepe Basquese no Douce France, acompanhado por aquele suco de uvas que só a turma do Alberto sabe preparar, seria o melhor presente para a noite da terça... Vou me segurando com uma francesinha especial e ficam adiadas as comemorações.
PS: Aviso a Luciana, Juliana e Brenda que a viagem dos trinta está apenas começando...
EM TEMPO: Para os arianos Klécius Henrique e Ana Luiza Cardoso, meus muitíssimos parabéns no dia de hoje! Espero que as comemorações no Planalto Central sejam mais felizes!!!! saudades mil!!!
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Terça-feirazinha ingrata. Cheguei de Caminha pelas nove horas da noite. Tudo o que me restava, após receber um telefonema da redação dando conta de que eu viajaria no dia seguinte e passaria os próximos dois dias em Sernancelhe, era ver o segundo tempo do Porto-Lyon. Passei um dia de cão! Viagem à trabalho, sequer vi o Marcelo antes de sair e após voltar e para piorar a situação nem pude me dar ao luxo de bebemorar os meus trintinha com alguns shots... Teria de levantar muito, mais muito cedo para pegar a estrada.
Definitivamente, este ano o meu inferno astral foi além dos limites... No entanto, cá estou eu na casa dos trinta! Ganhei de presente uma belíssima vitória do Fê Cê Pê sobre o Lyonzinho do ex-vascaíno Juninho Pernambucano... Gol de Deco, Gol de Ricardo Carvalho e as semi-finais da liga dos sonhos está mais próxima.
Provavelmente um crepe Basquese no Douce France, acompanhado por aquele suco de uvas que só a turma do Alberto sabe preparar, seria o melhor presente para a noite da terça... Vou me segurando com uma francesinha especial e ficam adiadas as comemorações.
PS: Aviso a Luciana, Juliana e Brenda que a viagem dos trinta está apenas começando...
EM TEMPO: Para os arianos Klécius Henrique e Ana Luiza Cardoso, meus muitíssimos parabéns no dia de hoje! Espero que as comemorações no Planalto Central sejam mais felizes!!!! saudades mil!!!
Março 19, 2004
Estou de mundança para o Blogger, pois o Blogger BR e a poderosa Globo.com bloquearam o Me Myself & I e obrigaram-me a apagar meus arquivos, numa profunda falta de respeito pelos usuários do blogger.com.br. Tentei de várias maneiras salvar os meus antigos posts, deletando muitos dos arquivos. Mesmo assim, tenho o blog bloqueado. Desta forma, o Me, Myself & I está hospedado, sabe-se lá até quando, no blogspot.com
Saudades dos que estão do outro lado do Atlântico,
COMENTÁRIOS?
Saudades dos que estão do outro lado do Atlântico,
Janeiro 03, 2004
aBRINDO 2o04
Cnstituição, Porto.
21h30, 31 de Dezembro. 10ºC.
Caminho a procura de Marcelo. Procuro apressar o passo para chegar ao Consulado enquando caminho pelos trechos mais escuros da rua. Uma mulher em trapos pede aos que passam apressados algumas moedas. "É para comeire", diz. Dois peões do Leste procuram um local para parar o panda vermelho abarrotado de penduricalhos, tal como mula de cigano. A mulher pede dinheiro. Eles respondem na língua deles. A portuguesa insiste e eles seguem fingindo que não entendem. Há pouco haviam negociado dormida em uma pensão barata. Provavelmente vieram de fora, passar o reveillon na Baixa. Apesar do cansaço parecem felizes e não querem perder o humor. O autocarro para, sigo juntamente com o condutor e uma outra mulher. Não há quase ninguém nas ruas. A Invicta adormece nas últimas horas do ano. Chego a Boa Vista. Poucos são os que se movimentam na noite. Alguns sem-abrigo, uma carrinha distribui sopa, café e um bocado de esperança.
Julio Diniz, Porto
22h45, 31 de Dezembro, 9ºC
Caminho peolo silêncio da noite. Uma paragem e três angolanos. Uísque em copos de plástico. Sorrisos sinceros. Saudades do calor da terra deles. Seo William liga. Peço para ele dar um mergulho no mar por mim. Aqui há mar, mas a agua fria desencoraja qualquer molha-pés. Não há ninguém de branco, não há flores para Iemanjá. Os negros reclamam da tristeza que é esta terra. Eu, com banzo apenas confirmo. Dois casais caboverdianos juntam-se ao gurpo. Estão felizes. Sorriem, derrubam o uísque. Nos despedimos todos com desejos de um ano novo próspero. O grupo seguem no 19 rumo à Foz. Sinto uma alegria profunda e sincera. Sinto que já ganhei a noite. Vou encontrar Marcelo.
Um grupo de jovens portugueses, sete gajos e uma rapariga. Fuma muito, cospem e falam alto. Estão no meio da rua a espera de um autocarro. São os donos da cidade. Sinto que os sorrisos são demasiado estressados. E sujos. Não aprenderam ainda a ser felizes. Seguem no 24 rumo à Foz.
Sigo no 24 para o Foco. Chego ao consulado a uma hora de enterrar 2003.
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Cnstituição, Porto.
21h30, 31 de Dezembro. 10ºC.
Caminho a procura de Marcelo. Procuro apressar o passo para chegar ao Consulado enquando caminho pelos trechos mais escuros da rua. Uma mulher em trapos pede aos que passam apressados algumas moedas. "É para comeire", diz. Dois peões do Leste procuram um local para parar o panda vermelho abarrotado de penduricalhos, tal como mula de cigano. A mulher pede dinheiro. Eles respondem na língua deles. A portuguesa insiste e eles seguem fingindo que não entendem. Há pouco haviam negociado dormida em uma pensão barata. Provavelmente vieram de fora, passar o reveillon na Baixa. Apesar do cansaço parecem felizes e não querem perder o humor. O autocarro para, sigo juntamente com o condutor e uma outra mulher. Não há quase ninguém nas ruas. A Invicta adormece nas últimas horas do ano. Chego a Boa Vista. Poucos são os que se movimentam na noite. Alguns sem-abrigo, uma carrinha distribui sopa, café e um bocado de esperança.
Julio Diniz, Porto
22h45, 31 de Dezembro, 9ºC
Caminho peolo silêncio da noite. Uma paragem e três angolanos. Uísque em copos de plástico. Sorrisos sinceros. Saudades do calor da terra deles. Seo William liga. Peço para ele dar um mergulho no mar por mim. Aqui há mar, mas a agua fria desencoraja qualquer molha-pés. Não há ninguém de branco, não há flores para Iemanjá. Os negros reclamam da tristeza que é esta terra. Eu, com banzo apenas confirmo. Dois casais caboverdianos juntam-se ao gurpo. Estão felizes. Sorriem, derrubam o uísque. Nos despedimos todos com desejos de um ano novo próspero. O grupo seguem no 19 rumo à Foz. Sinto uma alegria profunda e sincera. Sinto que já ganhei a noite. Vou encontrar Marcelo.
Um grupo de jovens portugueses, sete gajos e uma rapariga. Fuma muito, cospem e falam alto. Estão no meio da rua a espera de um autocarro. São os donos da cidade. Sinto que os sorrisos são demasiado estressados. E sujos. Não aprenderam ainda a ser felizes. Seguem no 24 rumo à Foz.
Sigo no 24 para o Foco. Chego ao consulado a uma hora de enterrar 2003.
Dezembro 31, 2003
Me, Myself & I
Fim de ano, Porto, frio, saudades de casa, ausência dos amigos.
Este é o espírito de festividades pelo qual estou tomada...
Não me venham com champanhes, não me venham com lentilhas ou uvas-passas!
Tudo que eu queria era jogar flores para Iemanjá em uma praia de aguas quentinhas...
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Fim de ano, Porto, frio, saudades de casa, ausência dos amigos.
Este é o espírito de festividades pelo qual estou tomada...
Não me venham com champanhes, não me venham com lentilhas ou uvas-passas!
Tudo que eu queria era jogar flores para Iemanjá em uma praia de aguas quentinhas...